Tenho 38 anos e uma curiosidade antiga, dessas que não se contentam com respostas rápidas, pelo modo como o ser humano sente, pensa, adoece, se reconstrói e resiste.
Antes de chegar à clínica, passei mais de uma década observando pessoas em ambientes de trabalho. Formei-me inicialmente em Gestão de Recursos Humanos, depois aprofundei meu olhar em Gestão da Jornada e Experiência do Colaborador. Ali, dentro das empresas, eu via histórias inteiras se comprimirem em crachás. Aprendi a reconhecer sonhos sufocados por metas, ansiedades escondidas atrás de bom desempenho, adoecimentos que se disfarçavam de produtividade. Tudo isso me mostrou algo que nenhuma teoria me ensinaria: a mente humana sempre encontra um jeito de pedir socorro, mesmo quando ninguém está ouvindo.
Mais tarde, fiz um MBA em Gestão de Clínicas e Consultórios. Foi um preparo silencioso para aquilo que, no fundo, eu sempre soube que viria: o meu consultório, minha clínica, meu espaço de cuidado. Esse MBA me ensinou a construir a estrutura necessária para sustentar aquilo que realmente importa. Era como preparar a casa antes de abrir a porta para receber quem chega com a alma cansada.
Quando entrei na Psicologia, tudo fez sentido. Fiz uma imersão que não foi apenas acadêmica, mas existencial. Estudei Neuropsicologia porque queria compreender o cérebro como território vivo do sofrimento e da esperança. Estudei Saúde Mental, Psicopatologia e Atenção Psicossocial porque eu precisava nomear aquilo que, até então, só intuía, mas também porque sempre acreditei que saúde mental deve ser acessível e democrática. A Atenção Psicossocial me aproximou das políticas públicas, da realidade das pessoas que não têm a quem recorrer, dos corpos que sofrem sem estrutura, das histórias que pedem cuidado mesmo fora dos consultórios. Fui estudar isso porque acredito que acolhimento não é privilégio: é direito, é política pública e é ato de responsabilidade social.
Fiz duas pós-graduações em Psicopatologia porque a complexidade humana não cabe em um único mapa. Aprofundei-me nas Terapias Cognitivo-Comportamentais, entendendo seus fundamentos, suas técnicas e a clareza com que organizam o sofrimento humano. Mais tarde, estudei também Psicologia Baseada em Evidências, porque acredito numa ciência que ilumina o caminho, que organiza o caos e que devolve dignidade e direção. Para mim, a ciência é bússola. É cuidado. É ética.
Mas eu não parei aí. A vida clínica me levou para lugares onde corpos e mentes se encontram no limite. Por isso, estudei Neuropsiquiatria Nutricional, Obesidade e Emagrecimento, e aprofundei intervenções como Terapia de Aceitação e Compromisso e Terapia Comportamental Dialética, para acompanhar pessoas em sofrimentos que exigem precisão, presença e muita humanidade.
E, enquanto tudo isso acontecia, a Filosofia caminhava comigo como uma velha amiga. Minha Licenciatura em Filosofia não foi um adorno acadêmico. Foi a lente que me ensinou a perguntar, a sustentar silêncios, a ouvir o que não se diz. A ética, o sentido, o absurdo, a liberdade, o desejo, o sofrimento humano… tudo isso ganhou novas cores quando mergulhei na Filosofia. Ela não me afastou da ciência, ela me aprofundou nela.
Ser neurodivergente também moldou meu caminho. Não como diagnóstico exposto, mas como condição que me atravessa. Eu sinto o mundo com intensidade. Sinto as dores que chegam até mim de maneira visceral, quase corporal. Não apenas compreendo o sofrimento do outro. Em alguma medida, eu o reconheço. Por isso, meu encontro com cada paciente jamais é superficial. Ele é vivo. Ele é real. Ele exige de mim não só técnica, mas presença, coragem e sensibilidade.
Minha prática clínica é sustentada por método, estudo e evidências, mas também por afeto, filosofia e carne. A psicologia me ensina a compreender. A neurociência me ajuda a explicar. A filosofia me convida a perguntar. Minha neurodivergência me permite sentir. E meu encantamento pela mente humana faz com que tudo isso, junto, se transforme em cuidado.
É por isso que amo o que faço. Nas avaliações psicológicas, nos grupos terapêuticos, nas psicoterapias contínuas, nos encontros de sessão única. Em cada história que se abre diante de mim, sigo com a mesma premissa: escuta profunda, responsabilidade técnica e respeito absoluto pela singularidade de quem confia a própria dor.
Na fronteira entre ciência e humanidade, existe um lugar onde o sofrimento encontra linguagem e a vida começa, enfim, a respirar. É ali que meu trabalho acontece.